UMA AVALANCHE DE PEDRAS

Lanço mão de uma tradução livre de "Like a rolling stone", clássico atemporal de Bob Dylan, à luz da qual projeto o meu olhar sobre o mundo pós-moderno.


Houve um tempo em que você se vestia tão bem,/Jogava moedas aos mendigos, você estava no topo, não é?/As pessoas te diziam: “Cuidado, baby, você pode cair do cavalo”/E você achava que eles estavam de brincadeira/Costumava rir de todos que passavam, mas agora, já não ri tão alto/Já não tem tanto orgulho de ter de implorar pela sua próxima refeição.
A modernidade nos vestiu de certezas, de autoconfiança e de uma certa soberba quanto ao futuro. Mas a pós-modernidade nos “derrubou do cavalo”, roubou-nos a segurança e multiplicou os mendigos - de comida e de verdades.

Você foi às melhores escolas, ok, Miss Lindinha, mas apenas para se mostrar interessante/Você nunca teve de viver nas ruas, mas agora tem de se acostumar/Você andava em um cavalo prateado/Com o diplomata que levava um gato siamês em seus ombros/Deve ter sido difícil descobrir que ele não estava mais lá depois de levar tudo que era seu.Vivemos todos nas ruas.
De certa forma, transformamos-nos em bilhões de sem tetos vagantes. Sem teto são os socialmente excluídos, ou – para usar uma expressão de José de Souza Martins – anomalamente incluídos, em número cada vez maior. Mas sem teto são também os intérpretes da realidade ou os planejadores da mesma, obrigados a se acostumar à velocidade das mudanças que destrói os planos mais sólidos e as análises mais profundas.

Você nunca se virou para ver os rostos fechados/Dos malabaristas e palhaços, quando faziam truques pra você/Nunca entendeu que não era boa idéia deixar os outros fazer as coisas por você/Você disse que nunca faria pacto com o Senhor dos Mistérios/Mas agora você sabe que ele não está vendendo álibis/Enquanto você olha para o vácuo de seus olhos/E ele te pergunta: “Você quer fazer um trato?”.
Malabaristas e palhaços são os estranhos que a modernidade produziu e que, por muito tempo, tentamos ignorar. Mas, agora, eles são muitos, saem da periferia das grandes cidades e invadem os últimos refúgios mais seguros do mundo moderno. São as vítimas da modernidade buscando um lugar na galeria dos heróis. Perguntamos atordoados: o que fazer? Ignorá-los não é mais possível. Exterminá-los? Ou convidá-los para um novo pacto social?

A princesa está na torre e todas as pessoas lindas/ Estão bebendo, achando que tudo deu certo/Trocando todo tipo de bens preciosos/É melhor você pegar seu anel de diamantes e colocar no prego, baby/Você se divertia tanto com Napoleão todo rasgado e as palavras que ele usava/Já que ele te chama agora, vá lá, não se negue/Quando você não tem nada, você não tem nada a perder/Você é invisível agora, não tem segredos a esconder.
O mundo pós-moderno nos deixou nus. Nossos bens materiais e imateriais são fluidos e incertos. Curiosamente nunca a distância entre ricos e pobres foi tão grande, mas nunca a ameaça que esta distância desapareça abrupta e violentamente pairou de forma tão assustadora em nossas acomodadas mentes. Os que nada tem – e são tantos – não têm nada a perder. Isto lembra o que Marx disse sobre o proletariado. A frase retrata bem o mundo do trabalho atualmente, embora o proletariado de Marx, para muitos, esteja em vias de extinção.

Como é se sentir sozinha, sem ter para onde ir,/Como uma completa desconhecida, como uma pedra que rola?
Vivemos sozinhos, em nossos pequenos mundos particulares e egoístas, embora participemos de uma multidão global. Não sabemos quem somos, embora nunca se tenha dado tanta importância à identidade. Nossas identidades são múltiplas e descartáveis como os produtos do capitalismo pós-industrial. A montanha da modernidade que se erguia resoluta calcada num chão de verdades seguras foi detonada e fez dos homens uma avalanche de pedras rolantes.

3 comentários:

  1. Caro Professor Alexandre
    Estou terminando a minha monografia sobre Contracultura no Brasil e vou citar o senhor e seu blog como referencia ...poderia , por favor, me dizer se tem algum livro ou tese para que eu possa pôr também na bibliografia?Parabéns pelo blog,me foi de grande utilidade.
    att
    Claudia Kras

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    1. Querida,

      Não sei se sou merecedor da citação. De qualquer forma, muito obrigado. Recomendo o clássico de Theodore Roszak, "The Making of countercoulture" (no Brasil, simplesmente, "Contracultura", e também "Contracultura através dos tempos" (Dan Joy e Ken Goffman. Sugiro tb as obras da Heloísa Buarque de Holanda: "Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde", "tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura", "Cultura e participação nos anos 60". E de Luís Carlos Maciel, como "Geração em transe, memórias do tempo do tropicalismo". Há também "O que é contracultura", de Carlos Alberto Pereira, E “Nós somos os propositores:
      vanguarda e contracultura no Brasil, 1964-1974", de Christopher Dunn, Uma tese muito boa é "O discurso da contracultura no Brasil: o underground através de Luiz Carlos Maciel (c. 1970)", de Marcos Alexandre Capellari. Abraços.

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    2. Cláudia, quando sua monografia estiver pronta, por favor, me envie. Obrigado. Abraços

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